A língua maior que a cabeça

A gramática normativa costuma chamar de barbarismo a pronúncia ou escrita das palavras de forma incorreta, ou ainda, quando se dá à palavra ou expressão um significado diferente do real. Não raro pessoas em fase de escolarização ou já escolarizadas (mesmo aquelas que lidam com a linguagem) utilizam expressões e palavras de maneira inconveniente, seja por ignorância ou por hábito popularmente consagrado, todavia nem sempre em situações adequadas.

Uma delas é a palavra hipocrisia. Segundo o dicionário Aurélio (Ed. Positivo, 5ª edição, 2004), hipocrisia é: (1) afetação de virtude ou sentimento que não se tem. (2) Fingimento, falsidade. É célebre a frase de François La Rochefoucauld sobre a hipocrisia: “A hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude”.

Hipócrita deriva do grego “hypochrités” e designa as máscaras que os atores gregos usavam de acordo com as personagens do teatro. É daí que o termo hipócrita designa alguém que oculta a realidade atrás de uma máscara de aparência. No entanto, é comum ouvir pessoas ignorantes ou indiferentes a determinados assuntos serem chamadas erroneamente de hipócritas.

A palavra hipocrisia está ligada etimologicamente às máscaras do teatro grego.

Ora, uma pessoa ignorante só é hipócrita se finge saber o que não sabe!  Ignorância não é e nunca foi sinônimo de hipocrisia. Há pessoas que usam a palavra hipocrisia em ocasiões onde a palavra não tem o menor cabimento, talvez por achar a palavra bonita, não sei, ou pra mostrar que sabe falar difícil. Isso sim é hipocrisia!

Outro caso é o da expressão “ser influenciado”. As pessoas tomam seu sentido como “ser influenciado negativamente”. Não sei se, em termos estatísticos, essa palavra aparece mais relacionada a coisas pejorativas, mas é possível “ser influenciado” tanto para o bem quanto para o mal, entendendo-se por “influenciar” aqui, como convencer via razão ou emoção alguém a adotar determinada posição/atitude.

E quem nunca ouviu a professora de matemática dizer que “o gráfico da função intercepta o eixo das abscissas?”. Pois está errado. O correto seria intersecta, já que o gráfico faz uma interseção (ou intersecção, na grafia antiga) com o eixo, e não uma interceptação. É o tipo de erro que costuma passar despercebido aos ouvidos desatentos.

O gráfico intersecta (não intercepta) o eixo x.

Um dia desses, corrigi uma frase de um conhecido que dizia o seguinte: “que saibamos aproveitar as oportunidades que a vida nos concebe.” Obviamente, o verbo conceber não se encaixa bem nessa frase, de modo que sugeri o verbo conceder. Sim, pois a intenção aqui é dizer que as oportunidades que a vida nos devem ser aproveitadas, e não que a vida simplesmente nos cria (e as oportunidades? Foram pro beleléu?).

O assassinato da língua.

O verbo conceber é transitivo direto, na descrição da gramática, de modo que não admite dois objetos como aqui está, “as oportunidades” e “vida”.  Já o verbo conceder é transitivo direto e indireto, portanto aceita muito bem os dois objetos, sendo “as oportunidades” o objeto direto e “nos” (a nós) o objeto indireto.

Comuns também são os solecismos (erros de sintaxe, sendo de concordância, regência ou colocação). Como quando quiseram me convencer de que o “auxiliar administrativo” é a mesma coisa, tanto para homem quanto para mulher. Protestei. Mulher é auxiliar administrativa, com “a” no final. Logicamente, o adjetivo concorda com o gênero implícito (o sexo da pessoa), embora a palavra “auxiliar” sirva para os dois gêneros. É o que se costuma chamar de “concordância nominal ideológica”. Mas nem precisa ser bom entendedor de gramática para inferir essa adequação óbvia.

Para perceber alguns erros, nem é preciso ser bom entendedor de gramática.

A prática da leitura ajuda a dirimir tais erros. Entretanto, sob essa minha exposição, há quem, identificando-se em qualquer um dos casos, se sinta profundamente constrangido. Há quem não agüente mais e se sinta ao ponto de pedir para que eu pare de constrangir. Constrangir? Não, outro erro comum: o correto é constranger! O verbo do qual deriva a palavra constrangido pertence à segunda conjugação (-er). A língua sim é que merece ficar constrangida!

Como a língua portuguesa ficaria, se fosse uma pessoa.

O mais triste é os outros interpretarem essas correções como maldade, mesquinhez e preconceito. A esses, fazer o quê? . Agora, os mais espertos, estes sim sabem que a questão aqui não é mostrar como é fácil colecionar erros na linguagem dos outros, e sim levantar o que pode ser corrigido no discurso de muitos “universitários” por aí, que, como eu disse, possuem a língua maior do que a cabeça.